PORQUE OS CRISTAOS SOFREM?

por
J. Hampton Keathley III
hamptonk3@bible.org
Traduzido por B.V. Alves

Introdução

Por que eu? Porque agora? O que Deus está fazendo? O sofrimento é um instrumento que Deus usa para chamar nossa atenção e levar a efeito Seus propósitos em nossas vidas. Ele foi arquitetado para construir nossa confiança no Todo Poderoso, embora requeira resposta correta para poder obter sucesso no cumprimento nos propósitos de Deus. O sofrimento nos força a voltar-nos da confiança em nossos próprios recursos para uma vida pela fé nos recursos de Deus.
O sofrimento, por si só, não é virtude nem sinal de santidade. Também não é um jeito de ganhar pontos com Deus ou de subjugar a carne (como no ascetismo). Quando possível, o sofrimento é para ser evitado. Cristo evitou sofrer, a menos que isso significasse agir em desobediência à vontade do Pai.
 “No dia da prosperidade, goza do bem; mas, no dia da adversidade, considera em que Deus fez tanto este como aquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.” (Eclesiastes 7:14)
As questões a seguir são formuladas para nos ajudar a “considerar” o dia da adversidade:
(1) Como estou reagindo a ele?
(2) Como eu deveria estar reagindo a ele?
(3) Estou aprendendo alguma coisa com ele?
(4) Minha reação demonstra fé, amor por Deus e pelos outros, caráter cristão, valores, compromissos, prioridades, etc.?
(5) Como Deus pode usá-lo em minha vida?

Definição de Sofrimento

O que são essas curvas que Deus pôs no caminho de nossa vida e que devemos tão cuidadosamente considerar? Expressando de forma simples, sofrimento é qualquer coisa que machuca ou irrita. No projeto de Deus, ele é algo que nos faz pensar. É um instrumento que Deus usa para chamar nossa atenção e cumprir seus objetivos em nossas vidas de uma forma que jamais aconteceria sem essa provação ou irritação.

Ilustrações sobre Sofrimento

“Pode ser câncer ou inflamação na garganta. Pode ser a doença ou a perda de alguém próximo. Pode ser uma falha pessoal ou uma decepção no trabalho ou na escola. Pode ser um boato que esteja circulando em seu trabalho ou igreja, trazendo-lhe tristeza e ansiedade.”[1] Pode ser qualquer coisa, variando de algo tão pequeno quanto uma picada de mosquito ao enfrentamento de um leão numa cova de leões, como aconteceu com Daniel (Daniel 6).

Causas Gerais de Sofrimento

(1) Sofremos por que vivemos num mundo decaído onde o pecado impera nos corações dos homens.
(2) Sofremos devido a nossa própria inépcia. Colhemos aquilo que plantamos (Gálatas 6:7-9).
(3) Às vezes sofremos por ser isso a disciplina de Deus. “Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe.” (Hebreus 12:6).
(4) Podemos sofrer perseguição devido a nossa fé—especialmente quando tomamos uma posição acerca de questões bíblicas, isto é, sofremos por causa da retidão (2 Timóteo 3:12).
Obviamente, nem todas se aplicam ao mesmo tempo. Por exemplo, nem todo o sofrimento é produto de nossa própria tolice, tormento auto-induzido, ou pecado. É verdade, entretanto, que raramente o sofrimento deixa de revelar áreas de necessidade, áreas de fraqueza, ou atitudes que precisam ser removidas como a escória no processo de refinamento do ouro (conforme 1 Pedro 1:6-7).
Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo. (1 Pedro 1:6-7)

A Natureza do Sofrimento

(1) O Sofrimento é Doloroso. Sofrer é difícil; jamais é cômodo. Apesar do que sabemos e de quão esforçadamente aplicamos os princípios, haverá dor (conforme 1 Pedro. 1:6—“contristado” = lupeo, “causar dor, aflição, tristeza”).
(2) O Sofrimento é Desorientador. O sofrimento é um tanto misterioso. Podemos conhecer algumas das razões teológicas para o sofrimento a partir das Escrituras, mas quando ele nos golpeia, ainda há um certo mistério. Por que agora? O que Deus está fazendo? O sofrimento é idealizado para construir nossa confiança no Todo Poderoso.
(3) O Sofrimento tem Propósito. O sofrimento não é despido de significado, apesar de seu mistério. Seu principal propósito é a formação de um caráter semelhante ao de Cristo.
Romanos 8:28-29 28 Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. 29 Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
(4) Sofrer nos Experimenta (revela). “Provações” em Tiago 1:2 é o termo grego peirasmos e refere-se ao que examina, testa e prova o caráter ou a integridade de algo. “Tentações”, outra tradução da palavra no mesmo versículo, é dokimion, que passa uma idéia similar. Esta se refere a um teste delineado para provar ou aprovar. O sofrimento é aquilo que prova o caráter e a integridade de alguém, bem como o objeto e a qualidade de sua fé. Compare com 1 Pedro 1:6-7 onde as mesmas palavras gregas são usadas junto com verbo dokimazo que significa “pôr à prova”, “provar testando como ao ouro.”
(5) O Sofrimento é um Processo. Como processo, ele leva tempo. Os resultados que Deus procura alcançar com as provações da vida requerem tempo e, também, perseverança.
Romanos 5:3-4 3 E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; 4 e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.
Tiago 1:3-4 3 Sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. 4 Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes.
(6) O Sofrimento é um Purificador. Não importa a razão, mesmo que ele não seja a disciplina de Deus pela carnalidade grosseira, é um purificador já que nenhum de nós jamais será perfeito na vida.
Filipenses 3:12-14 12 Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. 13 Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, 14 prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
(7) O Sofrimento Provê Oportunidade. O sofrimento oferece oportunidade para a glória de Deus, nossa transformação, testemunho e ministério, etc. (Veja razões para o sofrimento, dadas abaixo.)
(8) O Sofrimento Requer Nossa Cooperação. Para ter sucesso no cumprimento dos objetivos de Deus, o sofrimento requer reação adequada de nossa parte. “Todos nós queremos o produto, caráter; mas não queremos o processo, sofrimento.”[2] Devido à nossa constituição como seres humanos, não podemos ter um sem o outro.
(9) O Sofrimento é Predeterminado ou Prescrito.
1 Pedro 1:6 Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações.
1 Pedro 4:12 Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo.
(10) O Sofrimento é Inevitável. A questão que todos precisamos enfrentar não é “se” teremos provações na vida, mas sim “como” reagiremos a elas.
 1 Tessalonicenses 3:3 ...a fim de que ninguém se inquiete com estas tribulações. Porque vós mesmos sabeis que estamos designados para isto.
1 Pedro 4:19 Por isso, também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem a sua alma ao fiel Criador, na prática do bem.
(11) O Sofrimento É Uma Luta. Será uma batalha durante todo o tempo. É por isso que são chamadas “provações” e “provas.” Mesmo quando conhecemos os propósitos e princípios do sofrimento, e conhecemos as promessas de amor e interesse divinos dados na Palavra de Deus para lidar com o sofrimento, enfrentar as provações da vida jamais é fácil porque o sofrimento machuca. As provações simplesmente nos dão a capacidade de cooperar com o processo (Tiago 1:4). Elas apenas propiciam o funcionamento do processo e nos permitem experimentar contentamento e paz interior dentro das provações.
A fim de lidar com o sofrimento com contentamento interior e tranqüilidade, precisamos ser capazes de olhar mais além para os propósitos e motivos de Deus para o sofrimento. Isso requer fé nas verdades eternas de Deus.
Constate as bênçãos da aflição conforme vistas no testemunho do salmista no Salmo 119:
Antes da aflição
Desviar e ignorar (vs. 67a)
Durante a aflição
Aprender e mudar de direção (vs. 71, cf. vs. 59)
Quando estamos em aflição precisamos de:
(1) Determinar as Causas, se pudermos (Isto é devido a alguma coisa que eu fiz?)
(2) Determinar os Objetivos (O que Deus está querendo fazer em minha vida ou na de outrem?)
(3) Determinar as Soluções (Como Deus quer que eu lide com isto?)
Após a aflição
(1) Conhecimento e mudança (vss. 67b, 97-102)
(2) Descansar e avaliar (vss. 65, 72)

Precisamos compreender que o propósito principal de Deus nas nossas vidas é tornar-nos a imagem de Cristo e Ele determinou em Seu plano usar o sofrimento para nosso desenvolvimento espiritual. Se devemos suportar o sofrimento e as provações da vida, entretanto, devemos também entender e acreditar nos outros propósitos e razões para o sofrimento, na medida em que estes estão relacionados com o propósito principal.

Propósitos e Razões para o Sofrimento

(1) Sofremos como testemunho, tal como uma testemunha (2 Timóteo 2:8‑10; 2 Coríntios 4:12‑13; 1 Pedro 3:13‑17). Quando os crentes lidam com o sofrimento com contentamento e estabilidade, isso se torna um maravilhoso testemunho do poder e vida no Cristo que afirmamos e reputamos. O sofrimento provê oportunidades vitais para manifestar e magnificar o poder de Deus através de seus servos, a fim de verificar e confirmar o mensageiro e sua mensagem. Ele fornece oportunidades para revelar nossas credenciais como embaixadores de Cristo (1 Reis 17:17‑24; João 11:1‑45). Estão incluídas as seguintes áreas:
a. Glorificar a Deus perante o mundo angélico (Jó 1-2; 1 Pedro. 4:16).
b. Manifestar aos outros o poder de Deus (2 Coríntios 12:9, 10; João 9:3).
c. Em meio ao sofrimento, manifestar o caráter de Cristo, como um testemunho para ganhar outros para Ele (2 Coríntios 4:8-12; 1 Pedro 3:14-17).
(2) Sofremos para desenvolver nossa capacidade e compaixão, confortando outros (2 Coríntios 1:3-5).
(3) Sofremos para controlar nosso orgulho (2 Coríntios 12:7). O Apóstolo Paulo entendeu seu espinho na carne como um instrumento permitido por Deus para ajudá-lo a manter um espírito de humildade e dependência do Senhor, devido às revelações especiais que ele tinha recebido por ter sido arrebatado ao terceiro céu.
(4) Sofremos por ser isso um instrumento de ensino. Amorosa e fielmente Deus usa o sofrimento para desenvolver nossa justiça pessoal, maturidade, e nosso andar Nele (Hebreus 12:5f; 1 Pedro 1:6; Tiago 1:2-4). Neste sentido, o sofrimento é planejado como:
a. Uma disciplina contra o pecado para trazer-nos de volta ao corpo de Cristo por meio de confissão genuína (Salmos 32:3-5; 119:67).
b. Um instrumento de desbaste para remover os galhos mortos de nossas vidas (fraquezas, pecados por ignorância, valores e atitudes imaturos, etc.) O objetivo desejado é o aumento da frutificação (João 15:1-7). Provações podem tornar-se espelhos de repreensão para revelar áreas escondidas de pecados e fraquezas (Salmos 16:7; 119:67, 71).
c. Um instrumento de crescimento arquitetado para levar-nos a depender do Senhor e de Sua Palavra. Provações testam a nossa fé e nos levam a usar as promessas e princípios da Palavra (Salmos 119:71, 92; 1 Pedro 1:6; Tiago 1:2-4; Salmos 4:1 [Em hebraico esta passagem pode significar “Você tem me ampliado, me feito crescer através de minha agonia”]). Sofrimentos ou provações nos ensinam a verdade do Salmo 62:1-8, a verdade de aprender a “esperar somente no Senhor.”
d. Um meio de aprender o que verdadeiramente significa obediência. Ele se converte num teste de nossa lealdade (Hebreus 5:8). Ilustração: Se um pai diz a seu filho para fazer algo de que este gosta (por exemplo, tomar uma taça de sorvete) e o filho o faz, a criança obedeceu, mas na realidade não aprendeu nada sobre obediência. Se o pai, entretanto, pede-lhe que corte a grama do jardim, isso vem a ser um teste e ensina algo sobre o significado da obediência. A questão é: a obediência freqüentemente nos custa algo e é difícil. Ela pode requerer sacrifício, coragem, disciplina, e fé na crença de Deus é bom e tem em mente o nosso melhor interesse, não importa como as coisas nos pareçam. Não importa a razão pela qual Deus permite o sofrimento em nossas vidas; raramente ele não revela áreas de necessidade, fraquezas, atitudes erradas, etc., tal como aconteceu com Jó.

O sofrimento, em si mesmo, não é coisa que produza fé ou maturidade. Ele é apenas um instrumento que Deus usa para trazer-nos a Ele de forma a que possamos responder a Ele e a Sua Palavra. O sofrimento nos força a voltar-nos da confiança em nossos próprios recursos para uma vida de fé nos recursos de Deus. Ele nos faz pôr em primeiro lugar as primeiras coisas. No final das contas, são a Palavra e o Espírito de Deus que geram fé maduro caráter semelhante ao de Cristo (Salmos 119:67, 71). 

Tiago 1:2‑4; 1 Pedro 1:6‑7: A expressão chave é “a prova de nossa fé.” “Prova” é a palavra dokimion que mostra ambos os conceitos: o teste que purifica, e os resultados, a prova resultante do teste. O Senhor usa provações para testar nossa fé no sentido de purificá-la, trazê-la para a superfície, de forma que somos forçados a pôr nossa fé para trabalhar.

(5) Sofremos para que seja produzida persistente dependência da graça e do poder de Deus. O sofrimento é planejado para fazer-nos andar pela capacidade, poder e provisão de Deus, ao invés dos nossos (2 Coríntios 11:24-32; 12:7-10; Efésios 6:10f; Ex. 17:8f). Ele faz nos voltar dos nossos recursos para os recursos de Deus.
(6) Sofremos a fim de manifestar a vida e o caráter de Cristo (O Fruto do Espírito) (2 Coríntios 4:8-11; Filipenses 1:19f). Isto é semelhante ao ponto (4) acima, com ênfase maior no processo e definição do objetivo, a produção do caráter de cristo. Tem tanto um aspecto negativo quanto um positivo:
a. Negativo: O sofrimento ajuda a remover impurezas de nossas vidas, tais como indiferença, autoconfiança, motivos falsos, autocentrismo, valores e prioridades incorretos, mecanismos de escape, por meio dos quais procurarmos tratar de nossos problemas (soluções humanas). O sofrimento, por si só, não remove as impurezas, mas é um instrumento que Deus usa para fazer-nos exercitar a fé nas provisões da Sua graça. É a graça de Deus em Cristo (nossa nova identidade em Cristo, na Palavra e no Espírito Santo) que nos modifica. Este aspecto negativo é efetuado em duas circunstâncias: (1) Fora da convivência com o Senhor: O sofrimento vem a ser a disciplina de nosso Pai celeste (Hebreus 5:5-11; 1 Coríntios 11:28-32; 5:1-5). Isso envolve pecado conhecido, rebelião e indiferença a Deus. (2) Dentro da convivência com o Senhor: O sofrimento vem a ser o amoroso, habilidoso e produtivo trabalho do Viticultor para nos tornar mais férteis. Envolve pecado não conhecido, áreas de que não estamos cientes mas que, mesmo assim, estão atrapalhando nosso crescimento e frutificação. Neste caso, muitas vezes o sofrimento constitui espelho de censura (João 15:1-7).
b. Positivo: Quando os crentes vivem o sofrimento em contentamento (isto é, suportam e continuam aplicando as promessas e princípios da fé), a vida e o caráter de Cristo serão mais e mais manifestados à medida que eles crescem dentro do sofrimento (2 Coríntios 4:9‑10; 3:18). Isso significa confiança, paz, alegria, estabilidade, valores bíblicos, fidelidade, obediência, em contraste a atitudes mentais pecaminosas, acusações, fugas, reclamações e reações contra Deus e seu povo.
(7) Sofremos a fim de manifestar a natureza perversa de homens maldosos e a retidão da justice de Deus quando isso entra em julgamento (1 Tessalonicenses 2:14-16). O sofrimento nas mãos de pessoas (perseguição, tratamento violento) é usado por Deus para “encher a medida de seus pecados.” Mostra o caráter perverso daqueles que perseguem outros e a justiça do julgamento de Deus quando eles caem.
(8) Sofremos a fim de ampliar nossos ministérios (conforme Filipenses 1:12-14 e 4:5-9). No processo de gerar caráter cristão e promover nosso testemunho a outros, o sofrimento muitas vezes nos abre as portas para ministérios que jamais poderíamos ter imaginado. A prisão de Paulo (diariamente acorrentado a soldados romanos em sua própria casa) resultou na disseminação do evangelho pela elite imperial da guarda pretoriana. Sem dúvida, o Apóstolo se rejubilava continuamente no Senhor, mas se ele tivesse estado reclamando, aborrecido e amargo, seu testemunho poderia ter sido nulo.





[1] Ron Lee Davis, Gold in the Making, Thomas Nelson, Nashville, 1983p. 17-18.
[2] Davis, p. 19. Veja também a p. 32.

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